A doença hemorroidária afeta cerca de 1 em cada 20 pessoas em algum momento da vida adulta. Apesar de ser extremamente comum, é também a doença anal que mais gera vergonha, atraso para procurar atendimento e automedicação ineficaz. Este artigo explica o que são hemorroidas, como reconhecer o grau, quais tratamentos existem e quando a cirurgia — incluindo a abordagem a laser — é a melhor opção.
O que são hemorroidas?
Hemorroidas não são uma doença em si — são estruturas vasculares normais que todos temos no canal anal. Funcionam como almofadas que ajudam no controle da continência. A doença hemorroidária aparece quando essas estruturas se dilatam, inflamam, sangram ou prolapsam, gerando sintomas. Por isso, o termo correto é doença hemorroidária, embora a palavra hemorroida seja a usada pelos pacientes.
Existem dois tipos:
Hemorroidas internas — localizadas dentro do canal anal, acima da chamada linha pectínea. Não doem (a região é pouco inervada para dor), mas costumam sangrar.
Hemorroidas externas — localizadas abaixo da linha pectínea, na pele perianal. Doem, especialmente quando complicadas por trombose.
Os 4 graus da doença hemorroidária interna
A classificação por graus orienta o tratamento:
- Grau I: sangram, mas não prolapsam (não saem do canal anal).
- Grau II: prolapsam durante a evacuação e voltam sozinhas.
- Grau III: prolapsam e precisam ser reposicionadas manualmente.
- Grau IV: permanecem prolapsadas o tempo todo.
Quais são os sintomas?
- Sangramento durante a evacuação — vermelho-vivo, no papel ou pingando no vaso.
- Sensação de bola ou caroço na região anal.
- Coceira ou irritação local.
- Dor — geralmente associada a trombose hemorroidária ou hemorroida externa.
- Sensação de evacuação incompleta.
O que causa a doença hemorroidária?
- Constipação crônica e esforço excessivo para evacuar.
- Diarreia crônica.
- Dieta pobre em fibras.
- Sedentarismo e tempo prolongado sentado no vaso.
- Gestação e parto.
- Predisposição familiar.
- Levantamento de peso.
Tratamento clínico: a primeira linha
A maioria dos casos de grau I e II responde bem ao tratamento clínico, que envolve:
- Aumento da ingestão de fibras (25-35g/dia) e de água (2-3L/dia).
- Banho de assento morno após evacuações.
- Pomadas e supositórios anti-inflamatórios pelo período prescrito.
- Flebotônicos via oral em fases agudas.
- Correção do tempo de evacuação (evitar permanecer mais de 5 minutos no vaso).
Procedimentos minimamente invasivos
Para casos de graus I, II e alguns de grau III que não respondem ao tratamento clínico, existem opções de consultório:
Ligadura elástica — colocação de pequenos elásticos na base da hemorroida interna, que fazem com que ela seque e caia em 5-7 dias. Procedimento simples, rápido, com leve desconforto.
Escleroterapia — injeção de substância que provoca esclerose da hemorroida.
Esses procedimentos são feitos no consultório, sem necessidade de internação ou afastamento do trabalho.
Cirurgia: quando é necessária
A cirurgia é indicada para hemorroidas grau III avançadas, grau IV, trombose extensa recorrente, ou quando o tratamento clínico e os procedimentos minimamente invasivos não foram suficientes. As principais técnicas são:
Hemorroidectomia convencional (técnica aberta) — remoção cirúrgica dos mamilos hemorroidários. Eficaz, mas com pós-operatório mais doloroso.
Fonte: Steele et al. The ASCRS Textbook of Colon and Rectal Surgery, 4ª edição
Cirurgia a laser — o laser pode ser empregado de duas formas distintas. Na hemorroidoplastia com laser de diodo, uma fibra fina é introduzida no interior do mamilo hemorroidário: a energia coagula os vasos e retrai o tecido, reduzindo o volume das hemorroidas sem cortes e sem remoção de tecido, com preservação da anatomia do canal anal. Já na hemorroidectomia com laser de CO2, o laser atua como instrumento de corte, substituindo o bisturi na remoção dos mamilos — inclusive do componente externo — com hemostasia simultânea e menor dano térmico aos tecidos vizinhos.
A escolha entre elas depende do que precisa ser tratado. O diodo é a opção habitual para hemorroidas internas de graus II e III sem componente externo importante; o CO2 entra quando há doença mais volumosa ou componente externo, situação em que a hemorroidoplastia não alcança o problema. Em casos selecionados, as duas formas são combinadas no mesmo procedimento. Em comparação à hemorroidectomia convencional, ambas tendem a oferecer menos dor pós-operatória, menor sangramento intraoperatório e retorno às atividades habitualmente em 5 a 7 dias — sempre com a ressalva de que a indicação depende de avaliação proctológica individual, e que o laser não é primeira linha de tratamento.
E a trombose hemorroidária?
É uma complicação aguda em que se forma um coágulo dentro da hemorroida externa, gerando dor intensa, súbita e uma bola endurecida e azulada na região anal. Quando atendida nas primeiras 48-72 horas, pode ser tratada com pequeno procedimento ambulatorial (trombectomia). Depois desse período, geralmente o tratamento é clínico, e a dor melhora em alguns dias.
Resumo prático
- Doença hemorroidária é comum e tem tratamento.
- A maioria dos casos responde ao tratamento clínico e a procedimentos de consultório.
- A cirurgia é reservada para casos avançados ou refratários.
- A cirurgia a laser oferece pós-operatório mais confortável e retorno mais rápido.
- Todo sangramento anal merece avaliação médica, mesmo quando parece típico de hemorroida.
- Steele et al. The ASCRS Textbook of Colon and Rectal Surgery, 3ª e 4ª edições
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Cada caso é único e exige avaliação individualizada por especialista.
Sobre o autor
Dr. Matheus Duarte Massahud
Coloproctologista · CRMMG 64970 · RQE 44212
Membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, preceptor da Residência Médica de Coloproctologia da Santa Casa de Belo Horizonte, membro do corpo clínico do Hospital Madre Teresa e da Rede Mater Dei de Saúde. Atua com cirurgia robótica, colonoscopia e tratamentos minimamente invasivos.
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